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domingo, 26 de fevereiro de 2017

Como a mesma mídia que destruiu Dilma fracassou miseravelmente na construção de Temer.

Não tinha me dado conta, em 30 anos de redações vividos sobretudo na Abril, do poder destruidor da imprensa.
Só consegui enxergar as coisas de fora. Verdade que o jornalismo de guerra é uma coisa relativamente nova.
A Veja foi pioneira, logo depois da eleição de Lula em 2002. O resto da mídia foi progressivamente aderindo à guerra.
Hoje, você não distingue, na essência, na alma, a Veja e o Jornal Nacional, para ficar num caso.
Isto posto, em minhas reflexões sobre meu ofício compreendi só agora o que se poderia chamar de “Maldição da Mídia”.

Ela destrói, mas não constrói. Um poder de destruição avassalador, mas impotência total na construção.
A maldição fica clara quando você examina o que foi feito de Dilma e o que está sendo feito com Temer.
As companhias jornalísticas acabaram com Dilma. Reduziram-na a nada. Inventaram uma mulher que era analfabeta, incompetente, grosseira e, sobretudo, corrupta.
Não concederam a ela sequer o desejo legítimo — e sustentado pela boa gramática — de ser chamada de presidenta.
Machado de Assis usou a palavra presidenta, mas os barões da mídia e seus sequazes acharam que sabiam mais que Machado.
O trabalho de extermínio de Dilma acabou dando nas convocações para protestos de um público manipulado e idiotizado pela mídia mesma.
Um clássico dos crimes editoriais foi a infame capa, às vésperas da eleição de 2014, em que a Veja afirmava que Dilma e Lula sabiam tudo sobre o Petrolão. A fonte era um alegado delator.
Você tem uma ideia da barbaridade daquela capa quando vê o teor das delações da Odebrecht.
Dilma acabaria virando terra arrasada. O jornalismo de guerra triunfou na obra de devastação de Dilma — e da democracia, e de 54 milhões de votos.

Agora considere Temer. A mesma mídia que liquidou Dilma tentou fazer dele um estadista.
Seu português era impecável, ao contrário da mulher de dois neurônios. Suas mesóclises, prova de cultivo e erudição. Foi tratado também como um mestre da articulação política.
Um dos colunistas do Globo, Ricardo Noblat, chegou a elogiar a beleza de Temer.
O ápice da tentativa de construção se deu num Roda Viva histórico em que os entrevistadores o trataram como um semideus. No final do programa, um deles — o produtor — postou um vídeo no qual agarrava Temer pelos braços para mostrar ao público que ele era de “carne e osso”.
A realidade logo se incumbiria de desfazer a miragem na qual a mídia queria que os brasileiros acreditassem.
O Temer real era e é este que está aí: covarde até para enfrentar a possibilidade de vaias, inepto para liderar o país num momento de extrema turbulência, carisma zero — isso tudo e mais de 40 citações numa única delação.
A imprensa fracassou miseravelmente na criação do Super Temer, tanto quando tivera êxito na destruição de Dilma.
Nem ponte ele é, mas uma pinguela, para usar a expressão de um dos cardeais do golpe, FHC. (Pinguela é ponte precária, de limitada confiabilidade.)
Esta a “Maldição da Mídia”: pode muito, pode tudo para destruir. Mas nada, rigorosamente nada, para criar. Traz sempre a sombra, o caos,  jamais a luz, jamais o sol.

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